terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Retorno à Ilhabela - Saco da Capela

Diário de Bordo do dia 14 de fevereiro de 2009.

Após uma noite de chuva, a quinta-feira não amanheceu diferente. A chuva nos prendeu dentro do barco, não que não conseguíssemos desembarcar, mas o dia acinzentado não nos convidava à nada.

Aproveitamos e colocamos algumas coisas para funcionar. O inversor, agora de 3000 Watts, que imaginávamos estar roubado toda a energia de nossas baterias de serviço, deixou de ser o vilão quando descobrimos a falta de um interruptor que permite os alternadores dos motores carregarem não apenas as suas baterias com as de serviço. Assim que o Ricardo o colocou, nosso voltímetro que estava em quase zero, pulou para os 16 Volts.

Religamos o inversor e vimos o forno elétrico ganhar vida e pudemos usar e abusar do laptop. Que coisa, ficamos sem energia elétrica por que alguém tirou uma das alavancas do interruptores. Assumo minha "mea-culpa", mas são certas coisas que me deixam pensando. Não basta ter alguém (o mesmo alguém) apenas preocupado em lavar o barco quando voce decidi descer para a marina. o barco tem que ter um marinheiro para chamar de seu (plagiando a música do Erasmo).

O Ricardo inspirado, fuçou na parte elétrica do painel e arrumou várias coisinhas enquanto eu mexia em outras coisas.

O Gutinho, bom o Gutinho...dormiu quase a tarde toda, mas acordou a tempo do café.

O Gutinho fazendo o que sabe fazer de melhor...

A noite fomos comer uma pizza no deck turístico da Vila e retornamos em meio a um leve chuvisqueiro.

Na manhã seguinte, dia 15 de fevereiro, novamente o dia amanheceu chuvoso e fizemos uma tentativa de retornar para o Guarujá. Saímos bem cedo do Saco da Capela e colocamos a proa em direção a saída sul do canal. A turbina de BE, que antes estava com 0,5 Kg, agora não estava dando nada. Demoramos quase um hora para chegarmos até a Ilha de Toque-toque. Ricardo e Gutinho permaneciam calados como adivinhando meu estado de humor.


Dado momento, ainda antes de ultrapassar Toque-toque, tomei a decisão de retornar até o Saco da Capela e tomar outras providências.


Não podia e não colocaria em risco as vidas ali sob minha responsabilidade. Gutinho me confidenciou mais tarde que tinha certeza de que eu ia retornar, talvez creditando à minha decisão sua própria opinião do que fazer.


Chegamos ao saco da Capela por volta das 11:00 hs e providenciei para que Gutinho voltasse até a marina de ônibus, pegasse nosso carro e voltasse até onde estávamos ancorados. Liguei ao Adailton e relatei o que ocorria, orientado-o de que viesse até o local na segunda-feira, pois deixaria o barco na bóia do Almir e retornaria de carro até a marina, a tempo de me encontrar com a Rita e a Nathalie, que estavam em nosso apartamento na Praia Grande (cidade de Praia Grande).


Minutos depois o Adailton retornou a ligação dizendo que iria aproveitar para subir com o Gutinho de carro, e que levaria o barco ainda naquele dia. Fiz algumas conta para ele em termos de tempo e combustível e afirmei que chegariam depois da meia noite, pois até chegarem em Ilhabela, já seria mais de 18:30 hs.


De qualquer forma, o Adailton veio de fato com o Gutinho, decidido levar o barco embora. O Ricardo que já havia manifestado interesse em ir conosco de carro, acabou tendo que permanecer na embarcação, para auxiliar o Adailton. Mais uma vez insisti que não fosse então naquele horário, mas aguardasse ao menos até o dia seguinte, para irem durante a luz do dia.


Saíram do Saco da Capela por volta das 19:00 hs e Gutinho e eu fomos nos hospedar na Pousada do Capitão, haja vista que o cansaço e o estresse do assunto nos haviam consumido a energia. CAlculei que uma noite bem dormida seria mais importante e recompensadora do que uma empreitada noturna pela estrada entre São Sebastião e Bertioga ( a BR 101, que alli se chama Rodovia Cônego Domenico Rangoni) que tem cerca de 70 Km de curvas.


21:00 hs, preocupado, liguei para o Adailton e a ligação não foi atendida, liguei para o Ricardo e o Adailton atendeu, dizendo que não conseguiu responder a tempo. Me falou que estavam passando pelas Ilhas (Ilha das Couves e da Baleia) já próximos do Montão de Trigo. Achei estranho, pois isso fica a meio caminho de casa. Apenas duas horas depois da saída...perguntei como estava o motor e ele me afirmou que o turbo de BE estava dando 0,5 Kg! Pensei: voltou a funcionar mal, mas ao menos funciona.Pedi que me ligassem quando chegassem na Marina, mas o cansaço não me deixou ouvir a chamada por volta das 02:00 horas.


Sábado de manhã, dia 16 de fevereiro, fomos embora e quando estava embarcado na balsa de travessia, liguei para o Adailton, retornando a ligação da madrugada. Ai a coisa pesou. Ele me disse que a rabeta de BB (a do motor bom) havia quebrado e que navegaram apenas no motor de BE (o ruim, por que estava sem turbina, não que estivesse com problemas mecânicos), e que quando chegaram na marina, por volta das 02:00 hs (horário da ligação), e colocaram esse motor no neutro para realizarem a manobra de atracação, o distinto não quis mais pegar.


Fico em dúvidas de cmo conseguiram tirar o barco da água...um motor neutralizado pois não pegava e o outro sem poder funcionar por que estava com a rabeta quebrada...


Bom, com a boa notícia, liguei ao Renato, mecânico que trocou os motores e pedi sua ajuda. Ele marcou no domingo para conversarmos na marina.


Quando cheguei por lá, ainda no sábado, e fui ver o estrago, fiquei muito triste. Imaginei que muito daquele estrago poderia ter sido evitado se o Adaílton me ouvisse. Tenho certeza de que no dia seguinte, ele ia querer avalliar melhor a situação e dependendo do que visse, poderia pedir ao Renato para olhar o motor ainda em Ilhabela, mas...deixei a coisa aconstecer.


O que mais me impressionou e me deu certeza de que havia algo errado foi o silêncio dos marinheiros na marina. Alguns até me evitaram, disfarçando uma mudança de caminho para não me confrontar. Creio que imaginaram o que já devem ter visto inúmeras vezes antes por parte de outros proprietários - um baita de um escândalo. Confesso que deu vontade de falar um monte de coisas, mas creio que seria inócuo.


Falei de uma forma um pouco mais firme com o Adaílton e sai de perto. Vários colegas proprietários vieram dar suas opiniões do que poderia ter acontecido. O Roberval chegou a uma conclusão mais próxima do laudo do Renato. A rabeta não quebrou por ter batido em alguma coisa. Em sua opinião teria sido a cruzeta que estourou de dentro para fora e quebrou o capacete da rabeta.


Na verdade também não foi a cruzeta, mas outras engrenagens que se romperam e quebraram o capacete da rabeta. Na verdade o motor MWM sprinter de 260 Hp tem um giro muito forte e a rabeta tende a não aguentar. Só precisa usá-lo com uma rotação mais baixa. O problema é que apenas ele estava funcionando, carregando o outro sem turbo nas costas, portanto deve ter sido mais exigido a medida que a distância entre Ilhabela e Bertioga não diminuía e a noite ia madrugada a dentro.


Com seu rompimento, tiveram que usar o motor sem turbo, que na verdade estava com uma entrada de água nos sistemas. Quando o desligaram, a coluna d'água não permitiu mais sua ligação.


Bom, na reunião com o Renato, expliquei os problemas, inclusive da falta de dinheiro, mas da necessidade de se consertar a embarcação, pois estamos olhando outra para negócio.


O Renato se prontificou a ajudar e simplesmente decidiu levar os dois motores (o bom e o ruim) e as duas rabetas (idem) para conserto e regulagem, além da pintura da rabeta, pois sua imersão acaba trazendo certas consequências, como a tinta que é atacada pela oxidação.


Agora estou sem barco, ao menos por algum tempo, mas tenho certeza de que em breve estarei novamente navegando pelos mares do sul.


Assim, até que isso ocorra, vou me dedicar a procurar outra embarcação. Na verdade já olhei duas e gostei muito de uma delas, de 36 pés.


Vou deixar um filme de nossa chegada à Ilha Anchieta, na Praia do Sul, mostrando o local. Espero que gostem.

Boa navegação à todos!

Capitão Amador Gutemberg
Comandante da embarcação Rei dos Reis