terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ilha Anchieta

Diário de Bordo - 10 de fevereiro de 2009 - 3ª feira

Acordamos cedo no Saco da Capela, Ilhabela e com céu de brigadeiro e mar de almirante levantamos o ferro e colocamos a proa no azimute de Ilha Anchieta - a ilha mística.


O Gutinho tinha ido sentar-se na proa e apreciar a viagem (isso ele faz como ninguém) e o Ricardo sentou-se no guarda-mancebo [já imaginaram a quanto tempo foi criado essa palavra - mancebo - a maioria dos leitores nem sabem o que significa, lá vai: de acordo com o idicionário Aulete - (man.ce.bo) [ê]
sm.
1. Indivíduo do sexo masculino que está na juventude; JOVEM; MOÇO; RAPAZ
2. Homem que vive em mancebia, em concubinato; AMÁSIO
3. Bras. Cabide para roupa, formado de uma haste com diversos braços
4. Bras. S Pedaço de pau ao qual se penduram candeias
5. Diz-se de indivíduo jovem, moço
6. Próprio da mocidade; JUVENIL
7. Em que há vigor, energia; ENÉRGICO; FORTE
[F.: Do l at. mancipus, de mancipium ?ação de adquirir ou tomar na mão? ?ext. escravo?, de manceps (de manus + capio).]

Voltando ao texto, o Ricardo ficou sentado ao meu lado no guarda-jovem (rs) e fomos conversando. No turbo de BE estava com 0,5 Kg e no de BB 1,0 Kg e equalizei no giro e toquei. Próximo da Ilha do Mar Virado, vimos ao longe um grupo de golfinhos esfomeados, que pularam rapidinho para fora para pegar ar e mergulharam novamente e até onde fomos observando não subiram mais. Que pena, não deu para fotografá-los. Mas na verdade queríamos mesmo era cruzar (de bem longe, claro) com uma baleia. Já pensou conseguirmos fotografar uma Jubarte...

Com Ilha Anchieta em nossa proa, fomos navegando a 17 nós. Estava me sentindo em meu futuro trawler, dentro de uma lancha com dois MWM de 260 cada que atinge fácil 30 nós. De qualquer forma, me sentia o próprio Popeye. Só faltava o cachimbo...

Quando assustei, cadê o Gutinho. Comoção geral a bordo. Ricardo saiu rápido por um lado eu por outro, olhei atentamente para a popa para ver se o localizava na esteira do barco e já ia dando a volta quando o Ricardo gritou:

_ Tá aqui...no fly...

Adivinha? Dormindo. Brincadeira! O cara tem uma capacidade impressionante para dormir, e não ache que não consegue dormir a noite. É um belo discípulo de Morpheu.

Passado o susto, entramos devagarzinho na pequena e bela enseada da Praia do Sul, lançamos a âncora e fomos de ré até bem próximo da praia. Falei para o Gutinho fazer contato com os nativos, ou melhor, um senhor que ali estava rastelando a praia e ver a possibilidade de pernoitarmos na pequena enseada. Quem disse que o Grande Guerreiro se atreveu a desembarcar e falar com o dito cujo do homem.

Lá fui eu, provido de toda coragem dos portugueses ao desembarcar em terras estranhas.

- Bom dia, será que o Sr vê algum problema em pernoitarmos na enseada?

- Melhor o Sr falar com aqueles pessoal (sic) ali. São da segurança.

Xiiii - segurança?? pegou...

Untada a cara em verniz naval, lá fui.

- Bom dia, quem é o camandante por aqui? Os dois mais novos logo apontaram o senhor de cabelos totalmente brancos, longas barbas, nonezinho de sei-lá-oque na cabeça e como os demais apenas de calção.

- Sou subtenente da nossa polícia militar, gostaria de saber se haveria problemas de pernoitarmos aqui na enseada, eu, meu filho e nosso marinheiro?

- ÔÔÔ muito prazer seu moço. Acho meior (sic) o Sr fazer o pernoite no outro lado, no saco das Palmas (juro que entendi na hora Saco das Almas - com todo misticismo da ilha, o nome seria ideal - rs).

Olhando atentamente, sem desviar olhar, percebi que um dos mais novos estava com uma bermuda da PM, do uniforme de verão.

-Ô chefe, também sou da PM, sou soldado responsável pelo destacamento local.

Rapaz, destacamento da PM numa ilha. Muito chique. Adorei!!!!

Feitas as apresentações e cumpridos os protocolos, enturmei e começamos a fazer um determinado escambo. Eu fornecia cervejas geladas e eles (menos o PM) as batidinhas de tudo o que vocês imaginarem - tudo meso. Batida de limão - vixxxiiii, tinha; batida de maracujá, também; batida das duas misturadas que descobri se chamar brasileirinha, idem e só foi aumentando a lista. De repente um deles se levanta vai até um pé de goiaba, mais conhecido por goiabeira (vermelha) e de repente batida de goiaba na mesa, Muito chique de mais... Jambolão, coco, bolacha (pode rir mais é verdade, provamos mais tarde), de ovo (eghhh, essa não tive coragem, mas teve gente que bebeu). Faltou de palmito ou de samambaia brava...rs.

Seo Joel, como se chamava o comandante da Ilha, vinha com uns peixinhos que pesca ali mesmo, fritinho na hora e lá se foi.

Dada umas horas, os dois mais novos (o PM e o Vigilante) foram para o outro lado da ilha (não o de baixo) por conta das visitas que começariam a chegar por causa do ex-presídio que ali existiu e foi pauco de um dos mais sangrentas rebeliões que o estado já teve. Foram mortos vários polciais militares que ali trabalhavam e moravam com suas famílias (mulheres e filhos), o Diretor da época, e até presos que tentaram impedir violência contra mulheres dos policiais e funcionários civis.

Depois disso, a ilha ficou abandonada e depois ainda foi transformada em área de proteção ambiental e parque estadual, e agora é habitada por fantasmas dos falecidos e até por ETs. Pelo menos é o que me garantiram por lá.


Quase anoitecendo, obedecemos a voz da experiência e fomos nos recolher na baia das Palmas. Desembarcamos e pudemos tomar um banho quentinho no chuveiro do destacamento, com a devida autorização, claro.


Depois fomos ao alojamento dos vigilantes onde experimentamos outras especies de batidas e pronto, fomos até o refeitório da Ilha para jantarmos arroz, feijão (olha que luxo) e linguiça frita, acompanhado de uma limonada de limão vinagre. Delícia de refeição. Para nós que já estávamos no mar, de certa forma, desde sábado, comer algo parecido com refeição de casa foi uma dádiva.

Após o jantar, desfrutamos das histórias e estórias da famosa rebelião, onde um dos líderes se chamava Jorge Floriano, conhecido pela alcunha de China Show e teria cometido atrocidades. Com relação ao nome do dito cujus, consta que não seria de decendência oriental e não encontrei no livro do Tenente Samuel Messias de Oliveira, intitulado Ilha Anchieta - rebelião, fatos e lendas, de quem ganhei um exemplar em visita anterior àquela ilha, sem nunca imaginar que um dia estaria ali, de novo, por meios próprios e ainda fazendo coisas alheias aos simples turistas. No livro ganho, o autor dedica: para meu irmão de armas, tenente Gutemberg, esposa Rita, filhos Felipe, Gutemberg e João Pedro, um abraço do autor, Ilha Anchieta, 06/01/07. Se passaram dois anos e quatro dias desse presente.
Embarcamos novamente e decidimos mudar o barco de lugar, indo um pouco mais a direita de onde estávamos. Escuridão completa. Nunca tinha imaginado que o mar a noite fosse tão escuro quanto nas matas. De qualquer forma, fomos em velocidade bastante lenta, liguei o farol de busca e fomos atrás de uma bóia que os colegas da segurança afirmavam que existia.

Por volta das 23:oo hs, conseguimos nos contentar com o lugar que iríamos pernoitar. Fechamos o barco e dormimos.


Com exceção de alguns que sonharam com o tal China Show, a noite foi só de tranquilidade...só o barulho do mar no costado da embarcação. Fiquei pensando por que transformaram aquele paraíso em inferno, tornando-o num presídio...




Boa navegação à todos!

Capitão Amador Gutemberg
Comandante da embarcação Rei dos Reis