quarta-feira, 9 de junho de 2010

De novo!

Diário de Bordo em 09 de junho de 2010

Feriado de Finados (um amigo disse que os evangélicos não deviam se aproveitar dos feriados católicos. Também acho, mas como dizia Silvester Stalone em seu filme O Juíz, Law is law) decidi visitar - é o máximo que tenho conseguido fazer - a Odyssey. A Rita foi junto e partimos na quarta-feira a tarde para fugir do feriado que seria na quinta-feira e entendíamos que causaria congestionamentos.

Malas prontas descemos - pela nova alça do rodoanel Mário Covas, e chegamos bem. Primeira providência olhar a meteorologia. Tempo razoável, não teria muito sol e nem tampouco choveria muito. Aliás, chuvas apenas nas noites.

Quinta-feira de manhã combinamos com o Alex que trouxesse a Fernanda e o Eric a bordo para passarmos o dia pelo canal de Bertioga, por que o mar não estava muito bom para navegação. Iríamos fazer o - já - famoso lambe-lambe do Imediato. Rodamos pelo canal e paramos para almoçarmos próximos do condomínio-marina Guarujá.




Foto: o Lambe-lambe do Imediato. Fantástico!


Foto: Rita e Fernanda se esquentando no sol. Fazia um frio de aproximadamente 16°C.


Foto: Alex, o Imediato e o pequeno Eric com seu janelão aparecendo...rs


Ficamos até bem tarde, por que o dia foi muito agradável. Dormimos cedo por que iríamos, na sexta, para o Saco do Indaiá, uma enseada bem perto da foz do canal de Bertioga, super conhecida e frequentada.

Sexta de manhã abastecemos o barco, apesar do Alex entender que não era necessário, pois havia diesel suficiente para irmos até Ilhabela, mas sempre é bom prevenir! O fato que quando o barco deixa de navegar, o diesel envelhece rapidamente no tanque e produz muita fumaça quando o motor é ligado além de outros problemas. por isso os marinheiros recomendam que quando vai chegando o inverno, deixe os tanques com o minimo para o acionamento de manutenção dos motores.

De qualquer forma, colocamos mais cem litros em cada tanque. Pronto!

Chegamos rapidinho ao Indaiá - cerca de vinte minutos de navegação - e ancoramos num canto protegido. Ali seria nossa casa pelos próximos dois dias. Nesse dia poucos barcos chegaram ali. Foi bom, deu para comermos tranquilo e até para eu tirar algumas ostras das pedras.



Foto: O Capitão comendo as ostras que tirou das pedras. Dá para ver uma outra lancha ao fundo. Não havia um sol forte, o que desanimou os navegadores.



Foto: Para quem não acreditou, ai está um closed da ostra. Acredite, eu como isso e gosto. A Rita que me ensinou a gostar, mas ela mesma não tem me acompanhando na empreitada....só na cachaça (só um pouquinho) que desce junto, rs.

A noite aconteceu um fato inédito. Vários barcos de pesca começaram a chegar e se abrigar para a passagem da noite. Os pescadores trabalham sós ou em tripulações. Depende do tamanho do barco e as vezes da família. Mas o fato é que todos eles se conhecem.



Não conseguimos ouvir a comunicação entre eles, por que usam os rádios PX, que tem frequencia diferente dos VHF que são usados e exigidos para barcos de esporte e recreio e comerciais.



Eles chegaram já escuro e trabalharam ainda um tempão limpando as redes e também consertando-as. Minha crítica é que eles não param o arrastão nem dentro do Saco, ou seja, eles entraram arrastando e só recolhem as redes quando param...todos sabem os estragos da pesca de arrasto para o fundo do mar...vem tudo, até tartarugas e isso me preocupou por que no Saco do Indaiá tem pelo menos uma que vive ali.

Foto: comemos uma tainha assada na churrasqueira no sábado. Outra especialidade de nosso Imediato.


Amanheceu o sábado depois de uma noite um pouco agitada para as características do Indaiá, mas nada anormal. Começaram a chegar algumas lanchas perto das 11:00 horas e foram se acumulando. Algumas menores chegaram e logo foram embora, por que o dia não estava bonito e ventava.

Sai com o inflável até a barra da enseada e vi os pesqueiros do lado de fora fazendo seu arrastão. Pensei: tudo ok!

Estava acompanhando a meteorologia o tempo todo pela internet e tinha previsão de tempo com sol e ventos fracos para o domingo. Assim, ao invés de forçar o barco num retorno até o canal no sábado, decidi pernoitar e esperar pelo domingo.

Pois bem, a tarde o tempo foi piorando e chocoalhando o barco cada vez mais. O último barco que ali estava era uma 60 pés que rompeu o mar daquele jeito mesmo. Tem grande murada e se protege melhor das ondas.

Ficamos. Sós...

A noite foi daquelas. Ninguém conseguia dormir direito pelo balanço das águas e batidas das ondas no costado. Olhava para fora e o tempo estava feio. Amanheceu e vi que nada estava melhor.

Infelizmente ainda sou escravo do relógio e tenho compromissos. Acertei com o Alex que se não conseguissemos sair logo teria que ir para a praia e abandonar a Odyssey com ele para mais um pernoite ali.

Navegar é assim. Voce não domina o meio. Navega quando é possível. Um erro pode representar muito, inclusive expor as vidas que estão sob sua custódia como comandante da embarcação.

08:00 horas.

_ Embarcação Odyssey a Delta 21.
_ Delta 21 em QAP. Odyssey prossiga para o canal 77.
_ Delta 21 à Odyssey.
_ Bom dia a Senhora e a todos que nos ouvem. Por gentileza Delta 21, Odyssey pelo Saco de Indaiá. Comandante da embarcação Capitão Gutemberg, Imediato marinheiro Alex e uma passageira. Poderia nos fornecer as condições climáticas para as próximas horas?
_ Positivo Comandante. Frente fria subindo com ventos de 20 nós elevando as ondas à 1,60m a 2,00m. Impróprio para navegação. Qual clube a embarcação é associada?

Estranhei a pergunta. Me soou como um alerta!

_ Marina Tchabum, no canal de Bertioga.
_ Positivo Comandante, recomendamos uma melhora no tempo para retorno ao canal.


Estava sacramentado. Não daria para retornar com a Odyssey a Marina. Não teve jeito, peguei apenas o notebook e a Rita idem, carteiras, chaves do carro e fomos levados para a praia pelo Alex com o bote auxiliar. Para descer foi uma dificuldade, haja vista as ondas quebrando.

Caminhamos pela areia e ia olhando o Alex voltando para a embarcação e foi me dando um aperto no coração. Fui vendo a Odyssey ao fundo da enseada esperando melhoras do tempo e com um "ar" triste.

Chamei o Alex pelo nextel e fomos falando. Uma maneira de diminuir minha sensação de ter fugido da luta.

Quando chegamos de ônibus na balsa, vi que nada havia melhorado, ao contrário, as ondas pareciam crescer. Avisei o Alex que garantiu que estava tudo ok. Fiz algumas recomendações, como se preciso fosse. O Alex é experiente e zeloso com o barco. Ele tem um vínculo afetivo por ela. Afinal são onze anos de trabalho ali.

Estava já pela rodovia Castelo Branco, retornando para casa, quando o Alex chamou e deu uma notícia terrível.

_ Patrão, aconteceu o que não poderia acontecer...
_ Fala logo o que foi...falei ansioso estacionando o carro no acostamento.
_ O cabo da âncora quebrou...

Até a Rita deu um salto de susto com a notícia. Imagine que o barco fica preso no lugar pela âncora e com o vento que estava fazendo, o barco poderia ser levado para as pedras e naufragar. Pior, o Alex sozinho na embarcação.

_ Voce tá brincando?
_Pior que não patrão...
_Levou o barco para o meio da enseada? Como está o vento? E as ondas?
_Complicado. Estou vendo uma bóia mais perto da praia, vou tentar chegar lá.

Perto da praia é mais raso. Não vai dar calado, pensei...

Imediatamente liguei para o Adaílton, um marinheiro que nos ajudou muito com a Rei dos Reis e perguntei se ainda estava na marina. Respondeu que sim. Pedi para que ele levasse a âncora da Rei dos Reis para o Indaiá e lá pedisse carona para uns barqueiros que ficam fazendo uns fretes da praia às pedras para pescadores que ali vão pescar.

Retornei a ligação ao Alex e ele antes que eu falasse me sugeriu exatamente a mesma coisa.

Nisso já havia chegado em casa, por volta das 16:00 horas.

Depois de um tempo e de muita comunicação com o Imediato, ele me chamou.

_ Patrão, já tá tudo certinho. A âncora unhou bem e está tudo bem. Vou começar a tentar achar a âncora com o cabo que quebrou...

Bom, passamos uma noite de expectativa. Eu em casa e o Alex no barco. O mar mexeu muito e ele dormiu pouco. Sozinho e com um histórico de quebra de caboi de âncora...não poderia ser diferente.

Por volta das 07:00 hs de segunda-feira ele me chamou:

_Patrão, tá tudo certinho, já estou no canal demandando a marina...

_ Já entrou no canal?? E as ondas??

_ Altas com vagalhões mas estavam distanciadas e deu para vir na velocidade de cruzeiro (algo em torno de 17 nós).

_ Maravilha Alex. Me mantenha informado de alguma coisa...

Pois é. O mar é isso. Tem identidade e personalidade. Se ele decidir que voce pode, pode, se decidir que não, não! Mas como dizem os ingleses (li isso num blog outro dia) mar calmo não faz bons navegadores...

Posso afirmar que quem disse isso foi o Epicuro (escrevi isso alguns posts atrás).

Lamentei muito não ter podido passar por essa junto com o Alex. Teria sido muito melhor lá do que a distância. Voces não tem idéia da angústia que me deu com tudo isso.

Ao Alex, parabéns pelo profissionalismo e presteza nas ações que impediu um fim trágico à esta história. Bom Imediato. Leal ao Comandante e ao barco.

Lembro-me que enquanto o barco balançava pelas ondas eu olhava em direção ao Forte de São João, que fica na entrada do canal e pensava: tão perto e tão longe...

Mas, tudo passou agora ao campo das lições aprendidas. A principal tarefa do Capitão é saber interpretar os sinais de tudo ao seu redor. Do vento, das ondas, das correntes, das aves, dos outros comandantes, dos pescadores e etc... e confiar menos nas análises meteorológicas, apesar de imprescindíveis à uma boa navegação.

Assim...

Boa navegação à todos!

Capitão Gutemberg

Comandante da Embarcação Odyssey